Satanás!

Calma, este não é um texto sobre o Demo, Lúcifer ou Capeta, como o queiram chamar. É sobre um episódio peculiar. Fragmentos deste texto estão escritos no meu bloco de notas há quase um ano.

O episódio ocorreu em Belo Horizonte na estação do Move (ônibus público da cidade, chamado por alguns de minhocão). O Move pode ser pego em pontos específicos nas ruas ou em estações que foram montadas na cidade junto às vias, criadas especificamente para a passagem de tal veículo.

Era quase meio dia e eu estava esperando na estação o 051 (meu ônibus) sentido Centro. O ônibus chegou. As portas de vidro da estação não se abriram instantaneamente, como de costume, porém, já avancei, esperando que a qualquer momento abrissem. No meu primeiro passo, um homem magro atravessou na minha frente e exclamou:

– Abre desgraça!

Ele carregava alguns sacos de alimentos nas costas: feijão, arroz, sal (o que consegui ver, como curiosa/enxerida que às vezes sou), dois panfletos de não sei o quê e um livro, que li pelo canto do olho: O Corpo Fala. Na minha cabeça (preconceituosa), olhando para aparência do sujeito, um livro entre seus objetos não parecia combinar e isso me despertou curiosidade. Quando entrou, ele sentou nos degraus do ônibus, jogou os panfletos em qualquer canto, mesmo tendo uma lixeira na sua frente.

Parei meu olhar enxerido e me voltei para segurar, o ônibus já dava partida.

Poucos segundos se passaram e o mesmo homem começou um batuque com ritmo frenético, sobre o piso do ônibus ou vidro da janela, não me lembro ao certo. Estava inquieto. No Move há uma voz eletrônica que anuncia a parada atual, permitindo que as pessoas se localizem e se preparem para descer. A cada fala da voz eletrônica, o homem repetia o enunciado, só que com uma voz diferente, ora aguda, ora grave. A voz eletrônica anunciava:

– Estação Liberdade.

Ele repetia com a voz aguda:

– Estação Liberdade.

A voz eletrônica anunciava:

– Estação Cachoeirinha.

Ele repetia com a voz grave:

– Estação Cachoeirinha.

Ele seguiu repetindo por mais três estações e depois parou. Talvez tenha cansado da performance.

Tudo normal por alguns minutos, e quando penso que já havia visto de tudo, o homem dispara, num grito alarmante, fazendo o ônibus inteiro se sobressaltar:

– Satanás!!!!!!! – ele exclamou com uma voz muito aguda e engraçada.

E como se estivesse encenando um teatro com dois personagens, onde ele fazia os papéis de ambos, ele continuava:

– Quem está aí? – agora com a voz grave (representava o Satanás).

– Sou eu! – com a voz aguda.

– Satanás!!! – voz aguda.

– Quem está aí? – Voz grave do Satanás.

– Sou eu! – voz aguda.

Uma situação totalmente fora do comum. Não pude conter um riso disfarçado, sua interpretação era muito boa! Algumas pessoas olhavam para trás, procurando de quem eram as vozes, talvez pensassem que eram duas pessoas. Alguns olhavam apreensivos e com medo, outros intrigados. Ele continuava, ora era Satanás, ora o sujeito da voz aguda e estridente.

Depois de alguns minutos de teatro, ele levantou-se para entender em qual localização se encontrava, olhava de um lado para o outro e olhava através das janelas.

Eu só observava.

Havia outro homem, ao lado do homem engraçado, lendo um livro. Desta vez, com sua voz normal, o homem engraçado perguntou naturalmente ao homem que lia:

– Já leu este livro? – e mostrou o livro que segurava: O Corpo Fala. O outro moço apenas balançou a cabeça negativamente, nem sequer levantou os olhos. Não tendo sucesso no diálogo ele deu alguns passos à frente – não havia muito espaço, pois era horário de pico e o ônibus estava um pouco cheio. Então ele ficou em pé ao meu lado. Encenou mais umas duas vezes o trecho de sua peça, de sua vida, ou de seu delírio: Ora Satanás, ora o sujeito da voz aguda. Neste momento, inclusive, senti medo. Pois não sabia até onde iria sua encenação. No entanto, continuei no mesmo lugar. Enfim, chegou sua estação, a voz eletrônica entoou:

– Estação IAPI.

E ele repetiu com a voz grossa:

– Estação IAPI.

Num pulo abrupto, o homem desceu com seus sacos e seu livro, mas sem os panfletos. Eu fiquei olhando a porta fechar e aturdida com o que havia acontecido naquele dia, em poucos 30 minutos de viagem. E fiquei retomando na minha cabeça, sua encenação, seu livro, suas atitudes.

Percebi como de fato o nosso corpo fala. Não sei quem era este homem, o que queria, o que dizia. Mas seu corpo me falou alguma coisa. Seu corpo me falou sua impaciência em esperar as portas se abrirem. Seu corpo me falou que mesmo com uma lixeira na sua frente, ele não a usaria. Seu corpo falou sua vontade de puxar papo com um qualquer. Seu corpo me falou que sua aparência impediu que o outro homem quisesse papo. Seu corpo me falou que ele não se importava com o que os outros estavam achando da sua encenação sem sentido, ele não se importava em se expressar. Seu corpo falou sua inquietude. Seu corpo falou sem ele se dar conta de que tanto falava. Corpos falam o tempo todo. Mas nem sempre estamos atentos para ouvir e perceber.

A gente tenta esconder, às vezes, mas nas minúcias o nosso corpo fala a verdade. A gente tenta desviar, fingir, ignorar, mas o corpo fala e se a gente impede, ele arruma um jeito de desabafar.

O corpo deste homem falou. E vi como falou com sinceridade e sem pudor. Não sei se falou sua loucura ou sensatez. Eu só ouvi e percebi. Absorvi. E na verdade fiquei encucada com aquilo.

A única coisa que realmente pude concluir foi que há condições que nos fazem viver em constante delírio ou imaginação. A imaginação pode ser um escape para não vivermos nossa realidade. E há condições que nos fazem ser como somos. Sermos verdadeiros e ponto. Ser a sua verdade não quer dizer que é ser bom ou ruim. É ser você de acordo com o que viveu e tem de experiências.

Agachei e peguei o panfleto que o homem jogou nos degraus do ônibus, eram publicidades de um programa do governo que doa alguns itens básicos para quem precisa. Pessoas e vivências nos fazem ver o mundo com outros olhos. Inclusive nos fazem ver partes do mundo que causam desconforto e melancolia. O mundo é desigual. Tem corpos falando. Mas muitas vezes é mais fácil ignorar.

Nasci com o cu virado para lua.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fotos recente do Instragram

Instagram did not return any images.

Siga a gente no Instragram

© 2019 Lua de Sofia Blog · Criado por Agência House