Pessoas cheias de si

Intrigante como ainda e sempre existem tantas histórias de ônibus que dão tapas na nossa cara sobre realidade e essência de vida. Pois bem, no ônibus. O sol quente e o ar monótono e parado, eram poucos minutos para as três da tarde,  quando entrei no transporte. Escolhi o lugar do lado da janela, já imaginando longos quarenta minutos suados, porém com um soninho revigorante. Sentei. Me arrumei em uma posição confortável e fechei os olhos. Dormir para mim sempre foi fácil, mas uma conversa entre duas mulheres sentadas atrás, me chamou atenção.

E fui uma enxerida que escuta conversa dos outros pelo canto do ouvido. Não sabia quem eram. A primeira mulher dizia que seu cabelo estava muito bom nos últimos dias e que outrora havia passado por experiências sofridas com sua aparência. Foi na sua gravidez, quando inchou muito e sofreu com queda de cabelo. Contava cautelosa para segunda mulher sobre ela mesma, entretanto de um modo diferente: como se ela fosse a contadora simplesmente e a grávida da época uma personagem do passado. Disse que se olhava no espelho e chorava, achando-a feia. A segunda mulher só ouvia. Tive que me aproximar para ouvir  quando ela contou sobre um episódio com sua irmã. Não sabia quem era. Somente que esta irmã certa vez lhe disse que estava muito descuidada, que havia engordado e que deveria ter cuidado, pois seu marido era mais novo e mais bonito. Narrou arrependida para segunda mulher como se sentiu com a opinião de sua irmã, ficou alguns dias chateada e “para baixo” e seu marido sempre perguntava o que estava acontecendo. Quando resolveu contar para seu marido a resposta dele foi a melhor impossível – tento colocar as mesmas palavras – “Você é a mulher mais bonita que tem, é até mais bonita que sua irmã” – imitou ela simples e entusiasmada. Completou sua história dizendo que depois disso não importava mais com opiniões alheias, disse que amar está acima da aparência e que mesmo que seja “necessário” ter um pouco de vaidade* (*1. Qualidade do que é vão, inútil, sem solidez nem duração 2. Fatuidade; ostentação 3. Sentimento de grande valorização que alguém tem em relação a si próprio. = VANGLÓRIA  4. Futilidade.), o que está por fora nunca será o mais importante. Fim.

Há muito me encanto com pessoas cheias de si. Não no sentido negativo da expressão, mas pessoas cheias delas mesmas e que exalam sua essência. São tão elas, autênticas, que você admira aquela humanidade real. Não são roupas, cabelos, pós ou discursos prontos. Pouco influenciáveis, não são cópias. Não são etiquetas. São cheias de si.

A moça levantou e não consegui vê-la. Virei o pescoço e já era tarde. As pessoas se aglomeram e fecharam o buraco que ela havia deixado ao sair. Olhei pela janela e avistei de longe a moça morena de cabelos crespos naturais e curtos, blusa branca, calça jeans, postura curva e corpo curvilíneo. E lá se foi toda cheia de si. Sem preocupar com o que outros vão dizer. E daí?!

Satanás!
Os incomodados que se retirem?

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