Os Retalhos

Debaixo de várias colchas de retalhos cabeças pensam, consciências pesam, sonhos iludem e olhos fecham. Uma colcha feita de pequenos pedaços desuniformes de pano. Coloridos, recortados, diferentes, mas costurados. Podia não ser da vontade daquele retalho amarelo estar furado por linhas que o conectaram ao retalho lilás, entretanto as agulhas os ajuntaram. Entenda, pois, como cada pedaço é todo. Todo que só existe com cada pedaço.
 
Os primeiros retalhos na cor rosa começaram a se entrelaçar, alguns que extrapolaram a linha entre consciência e radicalismo. Aqueles que tiraram panos, outros que levantaram agulhas, outros que se enrolaram nos finos fios. E claro, alguns azuis e rosa claro que manchavam os primeiros. A estes retalhos costuraram os coloridos, que fugiam desesperadamente da uniformidade da primeira tira de colcha. Queriam se espalhar, e espalhar amor. Muito amor, que aqueceria a mente debaixo daquele cobertor. Alguns retalhos entendiam como “construção colchal”, e que tinham que manter a tira, se não o cobertor perderia sua forma e de nada aqueceria corações. Que forma?
Outros retalhos que se empenhavam em quadricular a colcha queriam uma padronização de blocos de panos, onde um retalho azul e um rosa com três amarelos formariam o quadrado perfeito, encaixando uns nos outros constituindo uma colcha coerente e familiar. Cores tentaram se sobressair sob outras, quando começaram a costurar os retalhos escuros. Curioso porque a colcha precisa de retalhos costurados um do lado do outro, não um por cima do outro. E houve desprendimento e arrebentaram-se linhas. Houve retalhos agressivos que espetaram a agulha sem usar a linha. E só formou buracos.
 
Não era fim, nem começo de colcha, e faltaram pedaços de panos. Então chegaram retalhos que já foram de outras colchas recortados pelas metades. Os retalhos que já estavam a mais tempo naquela produção, não aceitavam as condições daqueles farrapos, e os deixaram nas pontas da colcha, nas margens frias que não cobrem o corpo humano.
Teve blocos de retalhos brancos, azuis e vermelhos que disputaram corações com os blocos de retalhos brancos e vermelhos. Não podiam aquecer juntos?
 
Até que…
 
A costureira derramou uma enorme xícara de café sobre a colcha, deixando uma mancha marrom sob os panos. Alguns retalhos distantes do borrão olhavam-no de longe, enquanto os outros se afogavam em café quente. A costureira levantou para passar a colcha na água, pesada, carregou dois mil e quinze retalhos costurados. Mas água não tinha.
Os retalhos estão eufóricos. Que continuem! Para manter as cabeças que pensam, as consciências que pesam, os sonhos que iludem e olhos que fecham aquecidos para trans-formar a colcha.
Obs.: TEXTO ESCRITO NO FINAL DE 2015, APÓS O “BOOM” DO FEMINISMO NA INTERNET, O EPISÓDIO EM MARIANA, A FALTA DE ÁGUA DAQUELE ANO E OS DISCURSOS EUFÓRICOS SOBRE A FAMÍLIA TRADICIONAL BRASILEIRA.
Lua de Sofia
Lado Mauzinho
Os incomodados que se retirem?

Comments

  1. Faça mais que sua parte, sendo um retalho formando uma colcha ou um cidadão colaborando para o fortalecimento e formação de uma sociedade mais unida, em busca de objetivos puros de egoísmo.
    Gostei muito.

  2. Faça mais que sua parte, sendo um retalho formando uma colcha ou um cidadão colaborando para o fortalecimento e formação de uma sociedade mais unida, em busca de objetivos puros de egoísmo.
    Gostei muito.

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  • ☺️☺️☺️
  • #tbt recente. Lugar mágico! 🌴🌱🐟🌊🐠
  • A natureza.
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A palavra natureza em algum ponto da língua latina se associa ao verbo nascer. Onde se nasce ou o que nasce. Somos feitos da natureza. As ciências naturais, a arte, a crença, a tecnologia, a vida. Antes de tudo, natureza.
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Eu fico me perguntando o porquê das coisas serem como são, porquê existimos, porquê fazemos o que fazemos e como fazemos. Mas diz minha mãe que pensar demais nessas coisas endoida a gente. Mas eu gosto de dar sentido nas coisas, como é comum de todo ser humano. No entanto uma hora as respostas se esgotam e você escolhe no que acreditar.
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Mas a natureza, ela é tão certeira, tão verdadeira, tão ela por si só, que me impressiona. Ela não precisa da gente. Há coisas na natureza que existem há tanto tempo e nós, meros humanos, só passamos por elas. A natureza continua. Quando falo natureza, é tudo. Não só uma planta no quintal. Natureza é flor, mato, rocha, lago, animais, chuva, trovão, é coisa grandiosa, vasta e que desafia nossa noção de poder. Afinal, somos tão egocêntricos que achamos ser maiores e que podemos dominar o mundo. Nós pobres humanos, achamos que podemos passar e devastar a natureza sem que ela perceba. Sem que ela devolva em desastre nossa ingratidão. Ela nos dá/deu, de mão beijada, uma bandeja de recursos. No entanto, assim, vez ou outra, desastre ou outro, ela cobra o preço a quem a usou desajuizado. A natureza para mim faz todo sentido. Nela eu acredito e pouco questiono. A respeito e me encanto com ela. ⛰️ #bonitoms #grutadolagoazul
  • Pedacinho do Rio do Peixe, um dos lugares mais lindos que já vi na vida! Achei que tava na sessão da tarde, nos cenários da Lagoa Azul. Mas as câmeras não conseguem captar a beleza que é pessoalmente. 😍😍😍 #riodopeixe #bonitoms
  • Sereia ou piranha? Um pouquinho de cada hahaha Rio Sucuri o terceiro mais cristalino do mundo 🐟😍 #riosucuri #bonitoms #nofilter
  • Flutuação no Aquário Natural 🐟🐠🐚 #bonitoms #aquarionatural
  • Olhar nos olhos do outro é tão difícil quando nos comunicamos, né? Ora porque é um momento em que nos sentimos desarmados e vulneráveis perante um olhar opressor, ora porque sentimos vergonha do que nossos olhos mostram ou tem a dizer. Ora é só timidez. Quando eu tento olhar nos olhos de alguém eu fico desconcertada, as palavras embaraçam. Na verdade a gente não costuma conversar olhando diretamente nos olhos. Eu preciso de muita intimidade para conseguir olhar assim: olho no olho. No entanto, olhares nos conectam de alguma forma, apesar de ser raro estes momentos acontecerem. Aqui, nas redes, parecemos estar muito conectados, né? Mas só parece. Tem uma tela que nos separa, do seu lado você não me olha, você olha minha foto, editada e bem bolada.
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Post para não esquecer de conectar com pessoas pessoalmente.
  • #tbt

As portas. PARTE I

Guardo no meu rolo de câmera algumas fotos de portas que tirei lá em Paraty/RJ. Tais portas, além de eu considerá-las belíssimas, me trazem a sensação de pertencimento, em algum momento eu me identifico com elas e gostaria de tê-las numa futura casa. Eu gosto de vê-las, editar as fotos, imaginar uma casinha com elas. É confortável e ao mesmo tempo inspirador. Os detalhes na madeira, as cores, as maçanetas. Ah! As maçanetas me encantam! Imagine quantas mãos já abriram ou fecharam estas portas? São muito antigas. Acho que a antiguidade delas que me fez escrever este texto num dia de #tbt. Estou voltando mesmo. Na verdade o exercício de voltar um, dois, três passos para trás está se tornando um exercício frequente para mim. Num mundo que projetamos e vivemos o futuro, andar para trás parece loucura. No entanto, é o caminho da volta que tem me feito crescer de alguma forma. Dar ré e: repensar, ressignificar, recalcular, reviver, reconhecer.
(continua na próxima foto)
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#luadesofia #blog #literatura #ideias #reflexão #poesia #poema #textos #escritos #comunicação #writing #writer #life #change #aprendizado #cronicas
  • #tbt

As portas. PARTE II

Então volto para as portas. Quantas já abri, quantas foram abertas para mim, as portas que fechei por necessidade e as portas que fechei sem perceber. No caminho há portas. E o sentido comum que tomamos de caminho é o pra frente. É evoluir, é avançar, e assim, algumas portas ou muitas delas passam despercebidas. Eu sempre acreditei e acredito na transformação constante e na possibilidade de podermos ser melhores a cada dia. Mas e se estamos indo rápido demais e por isso deixamos passar detalhes que são importantes na vida? Detalhes que nos fazem compreender o outro e a nós mesmos. Então tenho me contido. Nas conversas, nas ações, nos pensamentos, volto alguns passos para tentar estabelecer um ponto de encontro com o outro para que estejamos no mesmo compasso. (Ressalva: voltar não quer dizer que estou à frente de alguém, aqui é no sentido de chegar onde ela está). Livro-me das minhas bagagens e experiências por alguns minutos. Tento abrir espaço para que, em algum intervalo de tempo, eu compreenda o que é ver o mundo como a pessoa com quem eu estou relacionando, o vê. Estamos falando, expressando, expondo nossas opiniões adoidados. Mas não paramos para ouvir. A comunicação se dá é na interação com o outro. Entre fala e escuta. Temos muito a dizer, mas ouvimos do mesmo tanto?
(continua na próxima foto)
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