Os incomodados que se retirem?

Fui ao teatro com minha família. Entramos no salão e os organizadores nos indicavam as direções para que chegássemos aos nossos assentos.

Sentei e me acomodei. As poltronas eram confortáveis, mas acabei ficando nas últimas fileiras, por ter comprado o ingresso no dia. A abertura foi feita e o espetáculo começou. A peça chamava O Capote, com uma abordagem dramaticamente cômica sobre nossa condição existencial. Fascinante.

Naquele início porém, o que me incomodava era a existência de uma mulher na fileira ao meu lado, mastigando pipocas e, aos meus ouvidos, amassando a embalagem. Voltei-me para peça, não era aquele barulho que esperava de fundo musical: mastigava, engolia, amassava, mastigava, engolia, amassava, mastigava… Era um saco de pipoca infinito.

As pessoas à minha frente olhavam para moça. Não era só a mim que incomodava. Alguns a olharam por longos segundos para chamar-lhe atenção. Sem sucesso. O saco parecia ter vida nas mãos da mulher. Outros olharam-na de relance e balançavam a cabeça em reprovação, mas as pipocas saltavam para sua boca.

Depois de demorados quinze minutos, a mulher acabou sua refeição barulhenta. Embolou o papel. Estrondoso. Limpou a mão quase batendo palmas e lambeu os beiços. Todos que ouviram o espetáculo de fundo suspiraram aliviados pelo silêncio. Eu também.

Moral da história? Existem pessoas sem noção. Ou até inconscientes do que fazem . No ENEM alguém abrirá um pacote de Doritos e irá mastigar violentamente para seus ouvidos. Você pode olhá-lo enfurecido. Talvez ele nem o enxergue. E suas contas se misturarão com os farelos que caem sobre a mesa deste alguém. No trabalho o colega da mesa ao lado baterá a caneta freneticamente sobre a mesa, enquanto pensa sobre suas atividades. Mas você não quer ser o chato, estressado. Alguém vai ouvir música alta no ônibus, batendo o recorde da falta de desconfiômetro. Mas quem quer criar barraco? Um sem noção. Outro inconsciente. Lei da convivência.

Duas semanas depois, voltei ao teatro e comprei uma pipoca. Não deu tempo de comê-la fora do salão. Quando entrei acelerei o processo. Não queria ser a moça fazendo barulho mastigando pipoca.

Convivendo que se aprende. Incomodados não se retirem. Retira daquilo algo consciente.

Ou crie um barraco, se preferir.

Os Retalhos
Culturalmente não factual

Comments

  1. VC eh tão rica Sofia! Riqueza no sentido puro e singular do conhecimento, da nobreza, dos espaços qe VC se permite em cada olhar, em cada fato, em cada pessoa ! Parabéns ! Jóia rara de se ver ! Orgulho nosso! Bjo gata !

  2. VC eh tão rica Sofia! Riqueza no sentido puro e singular do conhecimento, da nobreza, dos espaços qe VC se permite em cada olhar, em cada fato, em cada pessoa ! Parabéns ! Jóia rara de se ver ! Orgulho nosso! Bjo gata !

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  • #tbt recente. Lugar mágico! 🌴🌱🐟🌊🐠
  • A natureza.
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A palavra natureza em algum ponto da língua latina se associa ao verbo nascer. Onde se nasce ou o que nasce. Somos feitos da natureza. As ciências naturais, a arte, a crença, a tecnologia, a vida. Antes de tudo, natureza.
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Eu fico me perguntando o porquê das coisas serem como são, porquê existimos, porquê fazemos o que fazemos e como fazemos. Mas diz minha mãe que pensar demais nessas coisas endoida a gente. Mas eu gosto de dar sentido nas coisas, como é comum de todo ser humano. No entanto uma hora as respostas se esgotam e você escolhe no que acreditar.
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Mas a natureza, ela é tão certeira, tão verdadeira, tão ela por si só, que me impressiona. Ela não precisa da gente. Há coisas na natureza que existem há tanto tempo e nós, meros humanos, só passamos por elas. A natureza continua. Quando falo natureza, é tudo. Não só uma planta no quintal. Natureza é flor, mato, rocha, lago, animais, chuva, trovão, é coisa grandiosa, vasta e que desafia nossa noção de poder. Afinal, somos tão egocêntricos que achamos ser maiores e que podemos dominar o mundo. Nós pobres humanos, achamos que podemos passar e devastar a natureza sem que ela perceba. Sem que ela devolva em desastre nossa ingratidão. Ela nos dá/deu, de mão beijada, uma bandeja de recursos. No entanto, assim, vez ou outra, desastre ou outro, ela cobra o preço a quem a usou desajuizado. A natureza para mim faz todo sentido. Nela eu acredito e pouco questiono. A respeito e me encanto com ela. ⛰️ #bonitoms #grutadolagoazul
  • Pedacinho do Rio do Peixe, um dos lugares mais lindos que já vi na vida! Achei que tava na sessão da tarde, nos cenários da Lagoa Azul. Mas as câmeras não conseguem captar a beleza que é pessoalmente. 😍😍😍 #riodopeixe #bonitoms
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  • Olhar nos olhos do outro é tão difícil quando nos comunicamos, né? Ora porque é um momento em que nos sentimos desarmados e vulneráveis perante um olhar opressor, ora porque sentimos vergonha do que nossos olhos mostram ou tem a dizer. Ora é só timidez. Quando eu tento olhar nos olhos de alguém eu fico desconcertada, as palavras embaraçam. Na verdade a gente não costuma conversar olhando diretamente nos olhos. Eu preciso de muita intimidade para conseguir olhar assim: olho no olho. No entanto, olhares nos conectam de alguma forma, apesar de ser raro estes momentos acontecerem. Aqui, nas redes, parecemos estar muito conectados, né? Mas só parece. Tem uma tela que nos separa, do seu lado você não me olha, você olha minha foto, editada e bem bolada.
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Post para não esquecer de conectar com pessoas pessoalmente.
  • #tbt

As portas. PARTE I

Guardo no meu rolo de câmera algumas fotos de portas que tirei lá em Paraty/RJ. Tais portas, além de eu considerá-las belíssimas, me trazem a sensação de pertencimento, em algum momento eu me identifico com elas e gostaria de tê-las numa futura casa. Eu gosto de vê-las, editar as fotos, imaginar uma casinha com elas. É confortável e ao mesmo tempo inspirador. Os detalhes na madeira, as cores, as maçanetas. Ah! As maçanetas me encantam! Imagine quantas mãos já abriram ou fecharam estas portas? São muito antigas. Acho que a antiguidade delas que me fez escrever este texto num dia de #tbt. Estou voltando mesmo. Na verdade o exercício de voltar um, dois, três passos para trás está se tornando um exercício frequente para mim. Num mundo que projetamos e vivemos o futuro, andar para trás parece loucura. No entanto, é o caminho da volta que tem me feito crescer de alguma forma. Dar ré e: repensar, ressignificar, recalcular, reviver, reconhecer.
(continua na próxima foto)
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#luadesofia #blog #literatura #ideias #reflexão #poesia #poema #textos #escritos #comunicação #writing #writer #life #change #aprendizado #cronicas
  • #tbt

As portas. PARTE II

Então volto para as portas. Quantas já abri, quantas foram abertas para mim, as portas que fechei por necessidade e as portas que fechei sem perceber. No caminho há portas. E o sentido comum que tomamos de caminho é o pra frente. É evoluir, é avançar, e assim, algumas portas ou muitas delas passam despercebidas. Eu sempre acreditei e acredito na transformação constante e na possibilidade de podermos ser melhores a cada dia. Mas e se estamos indo rápido demais e por isso deixamos passar detalhes que são importantes na vida? Detalhes que nos fazem compreender o outro e a nós mesmos. Então tenho me contido. Nas conversas, nas ações, nos pensamentos, volto alguns passos para tentar estabelecer um ponto de encontro com o outro para que estejamos no mesmo compasso. (Ressalva: voltar não quer dizer que estou à frente de alguém, aqui é no sentido de chegar onde ela está). Livro-me das minhas bagagens e experiências por alguns minutos. Tento abrir espaço para que, em algum intervalo de tempo, eu compreenda o que é ver o mundo como a pessoa com quem eu estou relacionando, o vê. Estamos falando, expressando, expondo nossas opiniões adoidados. Mas não paramos para ouvir. A comunicação se dá é na interação com o outro. Entre fala e escuta. Temos muito a dizer, mas ouvimos do mesmo tanto?
(continua na próxima foto)
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