Nasci com o cu virado para lua.

Você com certeza já ouviu a frase “fulano nasceu com o cu virado para lua”, fazendo analogia à sorte de alguém. Pois bem, eu nasci com ele virado. Será que você também nasceu? Há muitos problemas que permeiam nossas vidas, mas para mim aquele que mais me toca e me faz ser sensível com o outro, são os problemas provindos do ter ou não privilégios.

Antes de começar, só queria fazer uma ressalva. Eu acredito em pessoas que correm atrás de seus objetivos. Existem exceções, como o exemplo do menino de rua que virou empreendedor. Todavia, a noção que eu trago não é das diferenças individuais e essenciais de cada ser, mas de como somos mediante a realidade que vivemos.

Eu não sabia que eu era alguém com o cu virado para lua, até meus 16 anos, mais ou menos. Eu tinha uma noção, apenas. Só quando eu saí realmente da minha bolha, mudando de casa, vivendo experiências, que soube da pluralidade que é o mundo. Se fosse nos dias de hoje seria ainda mais fácil de perceber, principalmente com a internet. Pois bem, o que me faz alguém com o cu virado para lua? Alguém que tem sorte. Não sei por que cargas d’águas eu fui nascer numa situação tão boa, gratidão por isso. No entanto o mínimo que posso fazer é ter a noção de como seria se eu não tivesse nascido com tamanhos privilégios que, com certeza, me ajudaram a ser o que sou hoje. Mais uma vez ressalvo, claro que a gente faz nossas escolhas, tem a parte em que minha essência e personalidade contribuíram, mas estamos falando da danada da sorte que tive de simplesmente ter nascido (coisa que ninguém escolhe) numa realidade privilegiada.

Primeiro de tudo eu nasci branca e de cabelo liso, nunca sofri com a minha aparência, exceto por ser baixa e por um probleminha estético que não vem ao caso, e nem posso chamar de sofrer, pois, no meu caso, foram apenas implicâncias na adolescência e que não me afetaram profundamente. Eu nasci numa família cheia de amor, nunca lidei com situações extremamente desconfortáveis entre meus pais e irmãs. Estar em casa nunca foi um problema para mim. Eu comecei a trabalhar desde nova, fazendo suco para meu pai todos os dias e recebia R$0,50 por dia. Um “trabalho” que me tomavam 30 minutos diários, somente. No restante do tempo eu podia fazer aulas de dança, natação, música, ir a escola, brincar, ser criança. Eu nunca tive que largar os estudos para trabalhar e colocar dinheiro em casa. Eu sempre estudei em escola pública, mas para mim não era um problema, pois podia estudar no meu tempo livre, inclusive pude fazer um cursinho de reforço no terceiro ano. Meus pais puderam pagar para eu me mudar e estudar fora durante minha faculdade. Eu já viajei bastante, já conheci praias, já fiz viagens internacionais. Sempre tive incentivo à leitura e cultura – inclusive posso pagar pelo acesso a elas. Minha mãe orientou parte da minha vida sexual, então eu já era informada em casa sobre métodos contraceptivos, sobre DST’s, etc. Eu ganho presentes no meu aniversário e no natal. Eu nunca passei fome ou necessidade. Já estive próxima de situações de violência, mas nunca a sofri na pele. Eu sou mulher, sou hétero, quero casar e ter filhos e ninguém nunca me julgou por isso, “apenas” por não querer casar na igreja. Já questionei minha sexualidadade, já cortei o cabelo de “joãozinho” e me confundiram com um homem, mas nunca hesitei em cortar meu cabelo de novo, porque minha sexualidade nunca foi um “problema” para mim ou para as pessoas ao meu redor. Nunca tive que adaptar minhas vestes, aparência, modo de falar, para estar em um meio social como uma pessoa socialmente aceitável. Posso ser eu, sem preconceitos, olho torto ou cochichos. Já fiquei com raiva das cantadas na rua, por estar usando roupa de academia – que considero não menos que escroto quem as fez -, mas não sofri com um namorado que regula minhas roupas ou minha maquiagem. Nunca me senti diminuída por ser mulher. Eu posso me comunicar, posso ouvir, ver, entender, andar, não dependo de outra pessoa, de aparelhos ou do ambiente urbano adaptado para conseguir. Posso fazer sozinha.

Ser o que sou hoje tem a ver sim com as minhas escolhas e força de vontade, mas existe algo que precede, o meu contexto, o fato de eu ter nascido com o cu virado para lua. Como já disse e repito – já que estamos na era do “fingi que não entendi” -, cada um tem particularidades essenciais do seu ser, as quais o permitem ser da forma que é. Mas a realidade em que vivemos pode influenciar diretamente em nossas escolhas e em nossos caminhos. Quando há diferenças sociais, precisamos mudar para incluir, não enrijecer. Enrijecer exclui a pluralidade de vidas, contextos e pessoas. Por outro lado, é preciso ao mesmo tempo dosar até que ponto criamos oportunidades ou oportunismos. A oportunidade cria possibilidades mais justas. O oportunismo gera o mau uso das oportunidades, fazendo com que as mesmas deixem de ser uma maneira de incluir e passem a ser um motivo para usufruir, sem necessidade, de benefícios.

Enxergar outras possibilidades de ser, pensar e existir nos faz mais humanos. Sou grata pelos meus privilégios e também reconheço minha força de vontade. Talvez seus privilégios não sejam como os meus, é muito difícil de o serem, mas eles existem e são motivo para as diferenças sociais.

Lado Mauzinho

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Fotos recente do Instragram

  • ☺️☺️☺️
  • #tbt recente. Lugar mágico! 🌴🌱🐟🌊🐠
  • A natureza.
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A palavra natureza em algum ponto da língua latina se associa ao verbo nascer. Onde se nasce ou o que nasce. Somos feitos da natureza. As ciências naturais, a arte, a crença, a tecnologia, a vida. Antes de tudo, natureza.
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Eu fico me perguntando o porquê das coisas serem como são, porquê existimos, porquê fazemos o que fazemos e como fazemos. Mas diz minha mãe que pensar demais nessas coisas endoida a gente. Mas eu gosto de dar sentido nas coisas, como é comum de todo ser humano. No entanto uma hora as respostas se esgotam e você escolhe no que acreditar.
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Mas a natureza, ela é tão certeira, tão verdadeira, tão ela por si só, que me impressiona. Ela não precisa da gente. Há coisas na natureza que existem há tanto tempo e nós, meros humanos, só passamos por elas. A natureza continua. Quando falo natureza, é tudo. Não só uma planta no quintal. Natureza é flor, mato, rocha, lago, animais, chuva, trovão, é coisa grandiosa, vasta e que desafia nossa noção de poder. Afinal, somos tão egocêntricos que achamos ser maiores e que podemos dominar o mundo. Nós pobres humanos, achamos que podemos passar e devastar a natureza sem que ela perceba. Sem que ela devolva em desastre nossa ingratidão. Ela nos dá/deu, de mão beijada, uma bandeja de recursos. No entanto, assim, vez ou outra, desastre ou outro, ela cobra o preço a quem a usou desajuizado. A natureza para mim faz todo sentido. Nela eu acredito e pouco questiono. A respeito e me encanto com ela. ⛰️ #bonitoms #grutadolagoazul
  • Pedacinho do Rio do Peixe, um dos lugares mais lindos que já vi na vida! Achei que tava na sessão da tarde, nos cenários da Lagoa Azul. Mas as câmeras não conseguem captar a beleza que é pessoalmente. 😍😍😍 #riodopeixe #bonitoms
  • Sereia ou piranha? Um pouquinho de cada hahaha Rio Sucuri o terceiro mais cristalino do mundo 🐟😍 #riosucuri #bonitoms #nofilter
  • Flutuação no Aquário Natural 🐟🐠🐚 #bonitoms #aquarionatural
  • Olhar nos olhos do outro é tão difícil quando nos comunicamos, né? Ora porque é um momento em que nos sentimos desarmados e vulneráveis perante um olhar opressor, ora porque sentimos vergonha do que nossos olhos mostram ou tem a dizer. Ora é só timidez. Quando eu tento olhar nos olhos de alguém eu fico desconcertada, as palavras embaraçam. Na verdade a gente não costuma conversar olhando diretamente nos olhos. Eu preciso de muita intimidade para conseguir olhar assim: olho no olho. No entanto, olhares nos conectam de alguma forma, apesar de ser raro estes momentos acontecerem. Aqui, nas redes, parecemos estar muito conectados, né? Mas só parece. Tem uma tela que nos separa, do seu lado você não me olha, você olha minha foto, editada e bem bolada.
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Post para não esquecer de conectar com pessoas pessoalmente.
  • #tbt

As portas. PARTE I

Guardo no meu rolo de câmera algumas fotos de portas que tirei lá em Paraty/RJ. Tais portas, além de eu considerá-las belíssimas, me trazem a sensação de pertencimento, em algum momento eu me identifico com elas e gostaria de tê-las numa futura casa. Eu gosto de vê-las, editar as fotos, imaginar uma casinha com elas. É confortável e ao mesmo tempo inspirador. Os detalhes na madeira, as cores, as maçanetas. Ah! As maçanetas me encantam! Imagine quantas mãos já abriram ou fecharam estas portas? São muito antigas. Acho que a antiguidade delas que me fez escrever este texto num dia de #tbt. Estou voltando mesmo. Na verdade o exercício de voltar um, dois, três passos para trás está se tornando um exercício frequente para mim. Num mundo que projetamos e vivemos o futuro, andar para trás parece loucura. No entanto, é o caminho da volta que tem me feito crescer de alguma forma. Dar ré e: repensar, ressignificar, recalcular, reviver, reconhecer.
(continua na próxima foto)
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#luadesofia #blog #literatura #ideias #reflexão #poesia #poema #textos #escritos #comunicação #writing #writer #life #change #aprendizado #cronicas
  • #tbt

As portas. PARTE II

Então volto para as portas. Quantas já abri, quantas foram abertas para mim, as portas que fechei por necessidade e as portas que fechei sem perceber. No caminho há portas. E o sentido comum que tomamos de caminho é o pra frente. É evoluir, é avançar, e assim, algumas portas ou muitas delas passam despercebidas. Eu sempre acreditei e acredito na transformação constante e na possibilidade de podermos ser melhores a cada dia. Mas e se estamos indo rápido demais e por isso deixamos passar detalhes que são importantes na vida? Detalhes que nos fazem compreender o outro e a nós mesmos. Então tenho me contido. Nas conversas, nas ações, nos pensamentos, volto alguns passos para tentar estabelecer um ponto de encontro com o outro para que estejamos no mesmo compasso. (Ressalva: voltar não quer dizer que estou à frente de alguém, aqui é no sentido de chegar onde ela está). Livro-me das minhas bagagens e experiências por alguns minutos. Tento abrir espaço para que, em algum intervalo de tempo, eu compreenda o que é ver o mundo como a pessoa com quem eu estou relacionando, o vê. Estamos falando, expressando, expondo nossas opiniões adoidados. Mas não paramos para ouvir. A comunicação se dá é na interação com o outro. Entre fala e escuta. Temos muito a dizer, mas ouvimos do mesmo tanto?
(continua na próxima foto)
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