Acesso, questiono, sinto. Re-construo .

Como de costume, adentrei no ônibus. Vazio, por raridade. Passei pela roleta. Observei uma moça de chapéu preto, sentada no banco flexível no espaço para deficientes. Segui para um banco vazio. Sentei e encostei a cabeça no vidro da janela, olhando, sem ver, a cidade passar.

No silêncio quebrado pelos motores neste ônibus com nove pessoas, soou-se uma onomatopeia. Sobressaltada, meus olhos encontraram de onde viera o som. Alucinei que a moça de chapéu preto tivesse caído. Mas o estrondo foi de seu salto do banco flexível no espaço para deficientes. Não deu segundos e a moça começou a recitar uma crônica de Chico Anysio, Nascer velho e morrer criança. Desatou uma pronúncia artística sobre uma vida ao contrário. Prestei atenção. Não eram comuns artistas de ônibus em Divinópolis. Interessante – não o texto mirabolante do nascer sabendo, para mim a vida é boa de descobrir. Mas a situação.

Quantas pessoas declamam por amar? Escrevem para dizer? Dançam para viver? Cantam, tocam, para falar? Quantas pessoas vivem de arte? De criativa-idade?

Questiono-me nestes momentos prazerosos de acesso à arte, o que a incluí, a constrói. O subjetivo. Sentimento. Os por que’s. Para quem’s. A sensibilidade. Desejei que as pessoas do ônibus apreciassem. Enquanto eu estava a me intrigar.

E fim. “Morreríamos de infância”. A moça agradeceu graciosa e pediu um agrado. E as pessoas submergiram para o vazio – talvez nem tivessem emergido dele.

Mas se sentida: “A arte existe, porque a vida não basta” – Gullar. Nem que por cinco minutos.

Lua de Sofia

Culturalmente não factual
Seco futuro

Comments

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Fotos recente do Instragram

Instagram did not return any images.

Siga a gente no Instragram

© 2019 Lua de Sofia Blog · Criado por Agência House